Jornada 6x1 e a falta de tempo na vida das mulheres
No Dia do Trabalhador, artigo da Ministra de Estado das Mulheres, Márcia Lopes, traz reflexão sobre as condições de trabalho das mulheres
Neste 1º de Maio, o debate sobre o mundo do trabalho precisa ir além da geração de empregos. É cada vez mais necessário olhar para as condições em que o trabalho acontece — e, sobretudo, para o tempo de vida que sobra fora dele.
O mundo do trabalho é um dos principais espaços onde se expressam e se reproduzem as desigualdades de gênero. Embora as mulheres tenham ampliado significativamente sua participação nas últimas décadas, essa presença ainda ocorre em condições desiguais, marcadas por diferenças de renda, oportunidades e reconhecimento.
A jornada 6x1, ainda realidade para milhões de brasileiras e brasileiros, impõe uma rotina que compromete o descanso, o convívio familiar e a qualidade de vida. Para as mulheres, esse cenário é ainda mais desigual. Isso porque o tempo de trabalho não termina ao fim do expediente: continua em casa, no cuidado com a família e nas tarefas domésticas.
Essa sobrecarga não é ocasional. Ela reflete uma organização histórica que atribui às mulheres a responsabilidade pelo cuidado — um trabalho essencial, mas ainda invisibilizado e desvalorizado. Como consequência, falta tempo. Tempo para descansar, estudar, cuidar da saúde, participar da vida pública e construir autonomia.
Quando o tempo é escasso, as desigualdades se aprofundam. E, no Brasil, elas têm cor e classe: mulheres negras e periféricas são as mais afetadas pela informalidade, pela precarização e pelas jornadas mais intensas.
Por isso, discutir modelos como a jornada 6x1 é também discutir justiça social e igualdade de gênero. O futuro do trabalho precisa considerar não apenas produtividade, mas dignidade. Isso significa reconhecer o valor do cuidado, redistribuir responsabilidades e garantir condições reais para que as mulheres possam viver com mais autonomia.
O Ministério das Mulheres tem atuado para fortalecer políticas que ampliem o acesso a direitos, promovam a autonomia econômica e enfrentem as desigualdades estruturais que marcam a vida das mulheres. Esse é um passo fundamental para construir um país mais justo.
Garantir mais tempo é garantir mais direitos. É permitir que as mulheres possam escolher seus caminhos, participar da vida pública e viver com dignidade.
Repensar o trabalho é, portanto, repensar o próprio futuro da sociedade. E esse futuro só será possível com mais equilíbrio, mais justiça e mais igualdade.
Márcia Lopes
Ministra de Estado das Mulheres
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