Celso Amorim: BRICS não é 'anti-Ocidente', mas busca equilíbrio geopolítico
Assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais e um dos fundadores do BRICS, reforça o papel do grupo como alternativa multilateral

A décima edição do Diálogo de Planejamento de Política Externa do BRICS ocorreu em dois dias de discussões intensas, no Palácio do Itamaraty, em Brasília. Entre as prioridades das conversas estiveram as melhores práticas no planejamento de políticas externas e a análise das atividades mais recentes dos Escritórios de Planejamento de Políticas de cada país do agrupamento.
Outro ponto de debate se concentrou em um exercício de "varredura de horizonte", onde os participantes fizeram uma avaliação da geopolítica global e das tendências no sistema internacional. A proposta do BRICS de contribuir para uma reforma na governança global foi um dos principais tópicos abordados, incluindo a análise de uma ordem mundial mais justa e democrática, tema que vem sendo discutido pelo grupo desde o ano passado.
O chanceler Celso Amorim, assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, é um dos fundadores do BRICS, bloco que ajudou a consolidar como ministro das Relações Exteriores, entre 2003 e 2010. Ele foi um dos participantes do 10º Diálogo de Planejamento de Política Externa do BRICS, realizado em Brasília nesta semana
Entre as principais prioridades do Diálogo está a troca de avaliações sobre os desenvolvimentos regionais e internacionais, com uma atenção especial às questões do Sul Global, que muitas vezes são negligenciadas nos fóruns tradicionais. O trabalho também buscou identificar áreas de convergência nas políticas dos membros do BRICS e fomentar um espaço para a reflexão sobre futuras vias de cooperação, promovendo um estreitamento das relações dentro do grupo.
Durante o encontro, Amorim lembrou que o Diálogo de Planejamento de Política Externa do BRICS teve sua origem a partir de uma proposta feita pela presidência brasileira do grupo em 2014, representa um marco nas discussões informais entre os Ministérios das Relações Exteriores dos países-membros. Amorim citou que o primeiro evento dessa natureza foi realizado em 2015, na Rússia, e desde então o Diálogo tem ocorrido anualmente, sempre com foco nas necessidades e prioridades do Sul Global.
Ao revisitar as origens do grupo, o embaixador Celso reforçou o papel do BRICS como força pró-multilateralismo e desenvolvimento, negando que seja uma aliança "anti-Ocidente". Amorim, que participou das primeiras negociações do BRICS — então com Brasil, Rússia, Índia e China, antes da entrada da África do Sul — destacou a evolução do agrupamento.
"O BRICS nasceu de uma convergência de interesses, incluindo a ideia do IBAS (Índia, Brasil, África do Sul), e hoje representa um contrapeso geopolítico". Sobre a recente expansão para 11 membros, ele admitiu que a complexidade aumentou, mas defendeu a inclusão: "A África e o mundo árabe precisavam de representação. A Indonésia, com população maior que a do Brasil, também", observou.
Anti-EUA?
Sobre a percepção de que o grupo seria uma aliança contra os EUA, Celso Amorim foi enfático: "Não somos ‘anti’. Somos pró-desenvolvimento, pró-multilateralismo, pró-equilíbrio e pró-justiça social". Citou como exemplo a "Iniciativa dos Amigos da Paz” — grupo articulado por Brasil e China — que reúne majoritariamente países do Sul Global. O embaixador reconheceu que a ampliação exige mais trabalho diplomático, mas ressaltou: "É para isso que serve a diplomacia". Sobre o cenário global, lembrou as "duas grandes mudanças dos últimos 30 anos: o fim da URSS e a crise do multilateralismo liderado pelos EUA", defendendo que o BRICS oferece uma alternativa.
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Amorim ainda destacou a importância do Brasil no grupo e a intensa agenda de reuniões ministeriais durante a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, incluindo encontros de assessores de segurança nacional. "O Brasil já fez história no BRICS, e o grupo fará história na ordem internacional", concluiu.
Amplos debates sobre política externa
A principal característica do Diálogo de Planejamento de Política Externa do BRICS é o formato abrangente, onde as autoridades responsáveis pelo planejamento de políticas externas dos países-membros discutem temas relevantes sem a pressão de gerar um documento final. Não se trata de um fórum de decisões formais, mas de um local de troca de opiniões, onde é possível refletir sobre as questões mais atuais e os desafios que moldam o futuro do sistema internacional e do próprio BRICS.
Em 2024, durante a presidência russa do BRICS, o evento ganhou uma nova dinâmica ao retornar ao formato presencial após quatro anos de reuniões virtuais, devido às restrições impostas pela pandemia. O Diálogo realizado em Moscou foi também o primeiro a incluir os novos membros do BRICS, o que trouxe uma nova perspectiva para as discussões e ajudou a fortalecer a colaboração entre os países, promovendo um melhor entendimento entre as partes.
Em janeiro de 2025, a Indonésia entrou como membro pleno do BRICS. Essa foi a primeira expansão do grupo sob a presidência brasileira, iniciada em 1º de janeiro. O Ministério das Relações Exteriores brasileiro saudou a entrada da Indonésia, destacando o país como "a maior economia do Sudeste Asiático" e seu alinhamento com os objetivos do BRICS.
Novos membros
A embaixadora indonésia Spika Tutuhatunewa, representante da Agência de Estratégia de Política Externa do Ministério das Relações Exteriores da Indonésia, expressou entusiasmo com a recente adesão do país ao BRICS. Ela falou da relevância da conversa multilateral durante sua participação no Diálogo de Planejamento de Política Externa do BRICS, em Brasília. "Estamos muito animados por nos tornarmos membros do BRICS e por participar deste diálogo pela primeira vez", disse. Spika ressaltou que as discussões — divididas em temas como geopolítica, geoeconomia e desenvolvimento regional — permitiram à delegação da indonésia compreender as posições de cada país integrante e suas visões sobre os desafios globais.
Ao falar sobre os focos de atuação do país no grupo, a embaixadora Spika Tutuhatunewa destacou a busca por cooperação prática e inclusiva, citando áreas como mudança do clima, governança de inteligência artificial, transformação digital e segurança alimentar e energética — esta última, uma prioridade do novo governo do presidente da Indonésia, Prabowo Subianto. "Podemos avançar de forma mais concreta, e a Indonésia quer trabalhar com os demais membros para fortalecer essa nova ordem", completou, reforçando o compromisso com um sistema global menos centralizado e mais representativo.
A cooperação interna do BRICS também foi um ponto de destaque nas discussões, com o objetivo de fortalecer a coordenação entre os países-membros. Isso é fundamental para garantir que o grupo, composto por economias emergentes como Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã, continue a desempenhar um papel importante na definição da governança global e na promoção de uma ordem internacional mais equilibrada.
O Diálogo de Planejamento de Política Externa do BRICS é uma oportunidade para discutir questões de política externa, uma plataforma para fortalecer as relações entre os países membros e para refletir sobre o futuro da governança global. Ao reunir as economias em desenvolvimento do mundo, este ano sob a presidência do Brasil, o Diálogo se apresenta como um elemento essencial na busca por uma ordem mundial mais inclusiva e justa, refletindo as necessidades de um mundo cada vez mais multipolar.
Avanços e desafios no cenário geopolítico global
O chefe do gabinete de planejamento político do Brasil, embaixador Sérgio Rodrigues do Santos, coordenou o Diálogo de Planejamento. Ele salientou a importância do encontro entre os países-membros para analisar tendências geopolíticas e fortalecer a coordenação do grupo. “O objetivo é propiciar uma troca de visões e interpretações sobre os desdobramentos globais e as tendências do sistema internacional, permitindo que os países compartilhem análises a partir de suas realidades regionais”, pontuou.
O embaixador considera enriquecedor ter diferentes pontos de vista sobre as mesmas situações que o mundo vive hoje, ressaltando que o debate inclui temas como reforma das instituições globais — que é um ponto de convergência entre os membros do grupo, segundo ele.
Apesar da sintonia em temas como multilateralismo e governança global, Sérgio Rodrigues do Santos esclareceu que o grupo não tem mandato para negociar posições comuns ou declarações conjuntas.
"Nossa função aqui é trocar avaliações mútuas sobre o sistema internacional. As informações discutidas são levadas para cada ministério das Relações Exteriores e servem para subsidiar análises que apoiam a execução da política externa de cada país", explicou.
O encontro ocorreu em um momento de expansão do BRICS, que passou de 5 para 11 membros, e de crescente protagonismo do grupo em debates sobre ordem multipolar, comércio em moedas locais e reforma de instituições como a ONU e o FMI. O Brasil, que preside o BRICS, tem reforçado seu papel como ponte entre o Sul Global e economias emergentes, alinhando-se a temas como paz internacional e desenvolvimento sustentável.
O Diálogo de Planejamento, que contou com a participação de diversas delegações, dos países do BRICS, também proporcionou espaço para um um tour cultural pelo Palácio do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, considerado um dos prédios mais icônicos da arquitetura moderna brasileira, projetado por Oscar Niemeyer.
Por Leandro Molina, da Presidência da República
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