Trabalho e emprego

Agroecologia é caminho contra impactos das mudanças climáticas na saúde dos trabalhadores

Condições dignas de trabalho, qualidade de vida e preservação ambiental são possíveis se modelo de desenvolvimento sustentável também contemplar aproximação da Vigilância em Saúde do Trabalhador com vigilância popular em saúde de base territorial

Agência Gov | Via Fundacentro
04/02/2026 09:04
Agroecologia é caminho contra impactos das mudanças climáticas na saúde dos trabalhadores
Reprodução/Fundacentro
Estudo destaca que produção agrícola tradicional torna atividade uma das mais vulneráveis ao prejudicar recursos naturais e trabalhadores

Eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes mostram que as mudanças no clima impactam populações inteiras, a biodiversidade e a economia. As implicações alcançam também a saúde de trabalhadores e trabalhadoras, em especial os rurais. Um ensaio publicado na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional (RBSO) reflete sobre a relação entre aumento das temperaturas e agricultura convencional e como a agroecologia pode contribuir para reduzir o problema.

Os autores destacam que a produção agrícola tradicional no Brasil torna a própria atividade uma das mais vulneráveis ao prejudicar recursos naturais e trabalhadores, dos quais depende para funcionar. Um sistema baseado em monoculturas, mecanização intensa e agrotóxicos, que desmatam, reduzem a biodiversidade, degradam e contaminam o solo, provocam exaustão hídrica e assoreamento, entre outros, agravando as mudanças climáticas.

Para os trabalhadores, oferece um sistema penoso, com carga de trabalho excessiva, alimentação precária e exposição a vários riscos, como altas temperaturas, o que torna a atividade mais perigosa, gera adoecimentos e mortes. Já a população, sofre com crises de abastecimento e aumento da insegurança alimentar e nutricional.

O modelo convencional responsável por gerar tantos danos ambientais e à saúde dos trabalhadores é presente também na agricultura familiar. Embora representasse 77% dos estabelecimentos rurais em 2017, ela é a mais vulnerável devido ao pouco acesso a tecnologias, recursos e direitos para enfrentar eventos extremos. O maior desafio para as famílias é dispor de uma produção sustentável, razão pela qual a agroecologia se coloca como alternativa. É o que observam Maria de Fátima Moreira, Luiz Claudio Meirelles, Cristiane Mottin Coradin, Sergio Portella e Simone Santos Oliveira, autores do ensaio.

“A agroecologia é entendida como uma prática ecológica de cultivo dos solos, plantas e animais, culturalmente situada como uma ciência de produção da vida, que busca desenvolver tecnologias e técnicas de manejo sustentável e ecológico de agroecossistemas e como movimento social, que se organiza e se mobiliza por justiça socioambiental e por transformações sociais mais ampliadas das sociedades”, explicam.

A estratégia tem características que combinam abordagens sociais e ecológicas que permitem reduzir a dependência de insumos químicos, fortalecer a resiliência ecológica e diminuir a exposição dos trabalhadores a riscos ambientais. São processos mais naturais que contribuem para manutenção do meio ambiente e, em consequência, reduzem problemas que provocam mudanças climáticas. Dispõem da organização do trabalho em equipe, com redes de ajuda mútua, o que permite aos trabalhadores se organizarem melhor, equilibrando a carga laboral e se expondo menos a riscos. Portanto, é uma possibilidade de manutenção de ganhos econômicos e ambientais.

No entanto, para enfrentar as mudanças climáticas, os autores defendem que a agroecologia é um dos componentes de um necessário novo modelo de desenvolvimento com produção e consumo sustentáveis. Ele também deve incluir processos já conhecidos das alterações de clima, como a agricultura convencional. Destacam, ainda, a importância de implementar ações de Vigilância em Saúde do Trabalhador (Visat) direcionada ao setor e fortalecer a aproximação com experiências de vigilância popular em saúde de base territorial. Dessa forma será possível assegurar condições dignas de trabalho, qualidade de vida e preservação ambiental.

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Por
Karina Penariol Sanches

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