Festival Zona-48 Maré Cultural transforma município de Quatipuru em palco da cultura Hip-Hop
Com apoio da Política Nacional Aldir Blanc, evento ocorre neste sábado (7) e reúne breaking, rap, grafite, oficinas formativas e shows
Neste sábado (7/2), o município de Quatipuru, no Nordeste do Pará, será palco do 1º Festival Zona-48 Maré Cultural, evento gratuito que marca a estreia de uma grande programação dedicada à cultura urbana na cidade. Com atividades ao longo de todo o dia, o festival reúne oficinas, palestras, batalhas de breaking e rimas, além de shows musicais, reforçando o Hip-Hop como ferramenta de formação, identidade e transformação social.
A programação começa pela manhã com atividades voltadas para crianças e o acolhimento das caravanas com café da manhã. À tarde, o público poderá participar de oficinas de skate, breaking e rap, além de dois painéis temáticos. À noite, o festival ganha ainda mais energia com batalhas de breaking e rimas e apresentações musicais, incluindo o rapper Kratos e o cantor carioca Alan Bernardes.
O Festival Zona-48 Maré Cultural é realizado pelo Instituto Rede Cultura em Movimento (IRCEM), pelo Instituto de Danças e Movimentos Urbanos de Salinópolis (IDMUS) e pelo coletivo Maré Cultural, de Quatipuru, com incentivo da Política Nacional Aldir Blanc, apoio da Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (Fadesp), da Secretaria de Estado de Cultura do Pará (Secult-PA), do Governo do Estado do Pará, do Ministério da Cultura (MinC) e do Governo do Brasil.
A construção do festival está diretamente ligada à trajetória do coletivo Maré Cultural, criado em 12 de outubro de 2020, no distrito de Boa Vista, em Quatipuru. Segundo Anderson Borges, um dos organizadores e representantes do Coletivo Maré Cultural, o festival nasce do desejo de garantir que a juventude ocupe espaços de protagonismo que historicamente lhe foram negados.
“Desde o início da nossa caminhada, existia o sonho de realizar um festival organizado pela juventude, que fosse além do entretenimento. Um festival que abrisse espaço para o debate sobre nossas vivências, desafios e possibilidades de organização coletiva”, destaca.
O também organizador do festival e fundador do projeto Zona-48 Maré Cultural, Francisco Shiko, complementa o parceiro. “Sonhar com um festival era como querer ir pra lua. Mas foi a união, a organização e o acreditar de cada jovem que tornou tudo isso palpável”.
A presença da cultura Hip-Hop em Quatipuru representa, para Shiko, uma virada de chave para a identidade cultural do município. “Aqui no interior tem rap, tem grafite, tem batalha de rima, tem dança. A gente quer dizer: olha a gente aqui. Mesmo afastados geograficamente, aqui tem Hip-Hop”. Ele acredita que o território pode se tornar referência na cena do Hip-Hop interiorano do Pará.
A realização de um festival gratuito e com programação intensa pela primeira vez no município é uma conquista simbólica e política para o coletivo. “Esse evento é um recado claro de que a juventude é capaz, competente e comprometida. Quando se organiza coletivamente, ela consegue ocupar os espaços que lhe pertencem por direito”, reforça Anderson.
Para o presidente do IDMUS, Jefferson Lopes, conhecido como Jef Kido, a participação da instituição no festival representa mais um passo importante para a expansão da cultura Hip-Hop no interior do estado. Segundo ele, o IDMUS foi convidado a dar suporte especialmente à área do breaking, linguagem com a qual o instituto atua há mais de dez anos na região dos Caetés.
“É mais uma cidade que entra pra fazer parte da cultura hip hop. Isso deixou o IDMUS muito feliz, porque o pessoal de Quatipuru vai conhecer o Hip-Hop nos seus quatro elementos”, explica.
Além do caráter artístico, Jef ressalta a dimensão educativa e social da iniciativa. Para ele, eventos como o Zona-48 ajudam a ampliar o entendimento sobre o valor da cultura urbana e periférica, especialmente entre crianças e jovens. “É de suma importância para o pessoal entender o valor que a cultura urbana tem, não só nesse festival, mas em muitos outros que vão vir pela frente”, pontua.
O organizador também ressalta o impacto do festival na autoestima e no sentimento de pertencimento da juventude local. “Mostrar que jovens de um distrito de seis mil habitantes e de um município de treze mil habitantes conseguem produzir um evento desse nível muda tudo. Isso impacta diretamente a autoestima e a perspectiva de futuro”, enfatiza.
A curadoria artística do festival, que inclui nomes como o rapper Kratos e o cantor carioca Alan Bernardes, foi pensada para dialogar com a realidade do território. “O Kratos vem do interior e da periferia, produz rap de altíssimo nível sem estar na capital. O Alan também dialoga com a maré, com a pesca, com o mangue. É de maré pra maré”, resume.
Segundo o presidente do IDMUS, isso só foi possível graças ao fortalecimento das políticas públicas de cultura. “Através dessas captações de recursos da Política Nacional Aldir Blanc, a gente teve a possibilidade de fazer mais conexões e deixar o estado do Pará sendo reconhecido fortemente, como ele já é pra quem vive essa cena”, avalia.
O acesso às políticas públicas de cultura, especialmente por meio da Aldir Blanc, é apontado por Shiko como um divisor de águas. “A gente passou anos sem saber o que era edital. Quando entendemos que era possível acessar esse recurso, foi uma virada de chave. Hoje todo mundo que trabalha com a gente está sendo remunerado. Fazer arte sem recurso é injusto”.
O maior legado do 1º Festival Zona-48 Maré Cultural é a certeza de que é possível transformar realidades a partir da cultura. “O que a gente quer deixar é essa mensagem: é possível. Com união, organização e vontade, dá pra fazer e dá pra fazer bem feito”, completa Shiko.
Anderson finaliza destacando o impacto que o projeto quer levar para a geração de renda e perspectiva de futuro dos jovens: “O festival é um recado para que os jovens possam sonhar e compreender que sonhar vale a pena. Esse processo mantém viva a perspectiva de futuro e fortalece trajetórias individuais e coletivas”.
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