"Elas do campo à mesa”: conheça a história de mulheres que alimentam o Brasil
Campanha da Conab e UNOPS/ONU busca visibilizar o trabalho feminino em todos os setores da cadeia de abastecimento alimentar
O trajeto que o alimento percorre até chegar ao prato dos brasileiros não é feito apenas de terra, rodovias e silos. Ele é construído, fundamentalmente, pelas mãos de milhões de mulheres. O peso dessa força de trabalho é tão expressivo que, segundo o Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres rurais contribuem com 42,4% do rendimento familiar.
Com o propósito de revelar os rostos por trás desse imenso esforço diário, a campanha "Elas do Campo à Mesa: onde há alimento, há trabalho de mulheres" viaja pelas cinco regiões do Brasil. Realizada no contexto do projeto de modernização e reforma das unidades armazenadoras da Conab, uma iniciativa da Itaipu Binacional, da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e do Escritório das Nações Unidas de Serviços e Projetos (UNOPS), a campanha apresenta diferentes realidades para valorizar a atuação feminina em cada etapa da cadeia de abastecimento, provando que a soberania e a segurança alimentar e nutricional têm rosto e voz de mulheres.
A campanha tem como ponto de partida a rota do alimento através das histórias de sete mulheres fundamentais para o setor. A jornada começa na origem de tudo: a terra. Em Zé Doca, no interior do Maranhão, Eronildes Souza da Silva e Maria Rita Souza da Silva transformam a riqueza dos coqueiros em sustento. Quebradeiras de coco babaçu que conhecem o ofício desde a infância, Eronildes começou a trabalhar aos 10 anos e Maria Rita, aos 12 anos.
O trabalho na quebra do coco babaçu se soma aos cuidados invisíveis com a casa e os filhos, o que reforça a urgência de reconhecimento, como pontua Eronildes. O peso dessa dupla jornada é confirmado pelo relatório global de 2023 da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que aponta que as mulheres dedicam, em média, pelo menos três vezes mais tempo do que os homens ao trabalho de cuidado não remunerado e aos afazeres domésticos. Apesar dessa sobrecarga, o compromisso permanece, como resume Maria Rita com a sabedoria de quem vive do solo: "Agricultura é vida e aqui nós estamos inseridas", completa Maria Rita.
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Controle e liderança
Quando o alimento sai da lavoura, ele precisa ser preservado com excelência, e é aí que o cuidado feminino também está presente na armazenagem. Na Unidade Armazenadora da Conab em Ponta Grossa, no Paraná, quem garante esse fluxo vital é Juliana Aparecida Schneider de Oliveira. Com 11 anos de Companhia, Juliana já atuou na classificação de grãos e hoje opera o Sistema Aplicado à Armazenagem de Grãos (Saagra), que controla a entrada e saída das notas fiscais. Em um setor operacional historicamente gerido por homens, ela nota que as mulheres trazem não apenas uma melhoria nas relações interpessoais, mas também uma organização ímpar e agilidade.
Sua trajetória também evidencia a necessidade de adaptação estrutural. Juliana lembra de quando dividia o banheiro com os colegas homens e da falta de estrutura para motoristas mulheres. Para transformar essa realidade, o UNOPS realizou uma pesquisa para entender as demandas das pessoas que circulam pelas Unidades Armazenadoras (UA) da Conab. Como resultado dessa escuta, a solicitação por espaços adequados para o público feminino será atendida na fase 2 do projeto de reforma e modernização da UA Ponta Grossa.
Para a diretora-executiva Financeira, Administrativa e de Fiscalização da Conab, Rosa Neide Sandes, é preciso colocar essa pauta em debate, para que as trabalhadoras do abastecimento alimentar brasileiro ganhem visibilidade e, com isso, possam obter mais igualdade. “Quando falamos de alimento chegando à mesa dos brasileiros, estamos falando também da força, da organização e da persistência de milhões de mulheres que sustentam essa cadeia todos os dias. Tornar esse trabalho visível é um passo fundamental para avançarmos no sentido da equidade. Mas é igualmente fundamental que essas mulheres também ocupem espaços de decisão e gestão nas instituições e nas empresas do setor. Ampliar essa presença significa trazer mais diversidade de olhares, fortalecer políticas públicas e reconhecer, na prática, o protagonismo feminino em toda a cadeia produtiva de alimentos”, pontua.
Na estrada, superando desafios
Para que o alimento saia dos silos e atravesse o país, o trajeto exige asfalto e resistência. É nessa etapa que a estrada se torna o escritório de mulheres como Elisiane de Barros e Regiane Oliveira, das cidades paranaenses de Mallet e Sarandi, respectivamente. Com o pé no acelerador de seus caminhões graneleiros, elas são apenas uma parcela das mais de 32 mil mulheres na profissão, número que cresceu 58% na última década, segundo dados do Ministério dos Transportes.
Com 26 anos e há sete meses vivendo nas rodovias, Elisiane descreve a profissão como um misto de "liberdade com responsabilidade". No entanto, ela e suas colegas superam obstáculos diários. Além da insegurança, Elisiane aponta a falta de infraestrutura básica, como banheiros limpos e seguros, como um dos piores desafios enfrentados pelas mulheres na estrada.
De acordo com Regiane, o preconceito é outro desafio enfrentado diariamente por ela e outras mulheres na profissão. Após realizar o sonho da juventude de casar e ser mãe, ela foi incentivada pelo pai caminhoneiro a assumir o volante. Trabalhando há sete meses na área, Regiane relata episódios de invisibilidade no setor logístico. Ao chegar para descarregar em terminais, é comum ser olhada com estranheza ou ser confundida com a esposa de algum motorista, já que as estruturas e as equipes muitas vezes não estão preparadas para a presença de uma profissional feminina. "Já passou da hora de quebrar esse tabu", alerta Regiane.
O fim de toda essa longa jornada é quando, finalmente, o alimento chega no prato. Em Santa Rosa do Piauí, no Piauí, a história de Francisca Idelvane Muniz comprova como o apoio à agricultura familiar muda realidades. Moradora da zona rural, ela é beneficiária do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) da Conab desde 2013. Francisca representa apenas uma das 490 mil famílias que o programa apoiou somente entre 2023 e 2024. Semanalmente, ela recebe hortaliças, legumes e proteínas animais livres de agrotóxicos para alimentar o marido e as duas filhas.
Na casa de Francisca, a refeição preparada com itens de qualidade alimenta a família e reflete a solidariedade que envolve mulheres de vários pontos do país. "Posso garantir a segurança alimentar e nutricional da minha família com itens de qualidade, principalmente porque são produzidos por mulheres", ressalta. Seu relato é a prova final de que, do campo à mesa, a segurança alimentar e nutricional do Brasil é, essencialmente, construída por mulheres.
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