'A ciência é feminina e a gente precisa garantir essa visibilidade', diz Luciana Santos
Em entrevista à Voz do Brasil, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação falou sobre as ações do Governo do Brasil para incentivar meninas e mulheres a escolherem e permanecerem na ciência
Nos últimos três anos, o Governo do Brasil realizou uma série de ações e programas voltados para a permanência das mulheres em áreas científicas. Em entrevista à Voz do Brasil desta quarta-feira (11/3), a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, explicou que, mesmo com a maioria feminina no ingresso em áreas de pesquisa e inovação, com a jornada dupla, muitas vezes tripla, muitas acabam abrindo mão da carreira.
A maioria [feminina] da iniciação científica chega a mais de 64%. Aí, quando chega no topo da carreira, na produtividade, a gente vai para 35%. Que revela que, nesse meio do caminho, essas condicionantes impediram a permanência e a ascensão", destacou a ministra.
Trata-se do fenômeno conhecido como "efeito tesoura", que é a queda da participação feminina em áreas científicas conforme a carreira vai avançando, especialmente após a maternidade. "Esse é o fenômeno. E, com isso, a gente perpassou várias das nossas ações e botou o corte de gênero. Quando tem edital, seja de empreendedorismo, tem que ter ali uma participação feminina. Alguns programas têm equidade de gênero. Nós fizemos premiações, nós fizemos seminários, nós fizemos corte de gênero nos editais e ainda mudamos regras no CNPq. Então, a gente está chamando isso de Política de Empoderamento das Meninas e Mulheres na Ciência", acrescentou.
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A política lançada neste mês das mulheres tem o objetivo de consolidar a equidade de gênero, raça, classe e diversidade como eixo estruturante das políticas de maneira transversal e permanente. A medida foi anunciada durante cerimônia de entrega do 2º Prêmio Mulheres e Ciência, outra iniciativa que visa incentivar que mulheres façam ciência.
A iniciativa reúne e articula diferentes ações e programas voltados à promoção da igualdade de oportunidades para mulheres no campo científico e busca aumentar o acesso, garantir condições de permanência na carreira e estimular a presença feminina em áreas estratégicas de pesquisa e de inovação.
Meninas na ciência
A ministra falou ainda do programa Futuras Cientistas, voltado a meninas do ensino médio, que proporciona experiências em laboratórios e incentiva o interesse pelas áreas de ciência e tecnologia, acompanhando a aluna do início do ensino médio até o ensino superior.
Criado em 2012, apenas em 2022 a iniciativa teve alcance nacional, contemplando todas as unidades federativas do Brasil. Os resultados demonstram que, das participantes aprovadas nas universidades, 80% escolheram cursos nas áreas de ciência e tecnologia.
"Futuras Cientistas é um caso de sucesso. 80% dessas meninas de escola de ensino médio, de escola pública, elas têm acesso a laboratórios. E a resultado é que 80% delas passaram no Enem e mais de 70% delas foram para as carreiras de ciência, tecnologia e ciência da computação e exatas, né? Engenharia, ciência da computação e exatas", destacou Luciana Santos.
Confira a entrevista completa:
Ministra, a gente está no mês das mulheres, então eu queria começar essa entrevista com a gente falando sobre os incentivos para elas no âmbito das pesquisas científicas. Explica pra gente o que é o chamado efeito tesoura e o que tem sido feito para estimular a permanência das cientistas na carreira, especialmente depois da maternidade delas.
Então, Mariana, nós somos a maioria das acadêmicas do Brasil, somos a maioria dos mestres e doutores. No entanto, na permanência da carreira científica e no topo da carreira vem o que a gente chama de efeito tesoura, que são esses condicionamentos de uma cultura machista que tem na sociedade que acaba impedindo a permanência e a ascensão.
Então, nós estamos estimulando de diversas formas, seja com regras no CNPq, por exemplo, cientistas jovens que viram mães, muitas vezes os prazos de entrega dos trabalhos, nada mudava. Então, a gente mudou muito dos critérios para as entregas dos resultados da pesquisa e isso estimula a permanência das meninas e mulheres, para além da questão dos cuidados de uma maneira geral, dos idosos, que é a chamada dupla ou tripla jornada que as mulheres fazem no dia a dia no país. Isso não é diferente quando se trata das mulheres cientistas ou que entram na carreira científica.
Então, esse é o fenômeno. E, com isso, a gente perpassou várias das nossas ações e botou o corte de gênero. Quando tem edital, seja de empreendedorismo, tem que ter ali uma participação feminina. Alguns programas têm equidade de gênero. Nós fizemos premiações, nós fizemos seminários, nós fizemos corte de gênero nos editais e ainda mudamos regras no CNPq. Então, a gente está chamando isso de política de empoderamento das meninas e mulheres na ciência.
A ciência é feminina e a gente precisa garantir essa visibilidade, inclusive, que tem muitas mulheres de destaque na ciência e tecnologia brasileira.
A senhora mencionou aí Política nacional de empoderamento de meninas e mulheres em ciência e tecnologia. Pelo nome, a gente pode entender que se trata também de incentivos desde a fase escolar, já que meninas e mulheres, né?
Sim, sem dúvida.
Por exemplo, nós temos o programa Futuras Cientistas, que é um caso de sucesso. Começou no Centro de Tecnologia do Nordeste. Eu acompanhei isso desde o tempo que eu fui deputada federal.
E, quando eu virei ministra, nós demos escala nacional a esse programa, pela eficiência dele. 80% dessas meninas de escola de ensino médio, de escola pública, elas têm acesso a laboratórios. E a resultante é que 80% delas passaram no Enem e mais de 70% delas foram para as carreiras de ciência, tecnologia e ciência da computação e exatas, né? Engenharia, ciência da computação e exatas.
Porque, embora nós sejamos a maioria, todas as áreas de conhecimento, nessas áreas nós ainda chegamos a 36%, algumas áreas a 16%. Na área de TI, na economia, a gente tem uma presença de 16,7%. Ou seja, essa é uma área que a gente precisa dar atenção, porque embute aí uma barreira psicológica de que isso não é lugar de mulher.
E a gente precisa dizer, em alto e bom som, que ela pode estar na ciência e pode estar nas carreiras de engenharia. Eu, na minha turma, eu sou engenheira eletricista, na minha turma tinham 6 de 40. E a gente precisa estimular a participação, porque isso ajuda não só a inclusão social, mas isso ajuda a qualidade, porque a diversidade leva a uma qualidade na produção científica.
É uma multiplicidade de visões. A senhora falou do Futura Cientistas, e a gente segue aqui mencionando o estímulo às meninas, né? Que elas queiram seguir carreiras científicas. O programa tem uma visão também voltada para estimular as referências de cientistas, mulheres, não só para as meninas, mas acaba que para os meninos também. Isso ajuda a reformular essa cultura e diminuir essa visão machista, né?
Sem dúvida, né? Além do Futura Cientistas, a gente tem um outro edital que é R$ 100 bilhões, que é Meninas e Mulheres, que também do CNPq, que vai para essas carreiras. Então, é rede, tem que ser três instituições diferentes que reúnem professor e aluno para um determinado desafio. Então, isso faz com que a presença nessas áreas, quando você dá oportunidade, quando você estimula, ela tenha resultados.
E é nessa direção que a gente caminha com esses programas editais.
Agora, voltando a falar do efeito tesoura, ministra, que me parece muito bom porque dá mesmo essa ideia de que se cresce até um determinado ponto e aí depois vem um corte, né? Um corte estrutural. O seu ministério tem desenvolvido também políticas voltadas para lideranças femininas e de gestão feminina na ciência e tecnologia dentro dos ambientes de pesquisa. Que políticas são essas?
Há um estímulo nosso para esse papel de liderança. O CNPq, por exemplo, são quatro diretores, três são mulheres. Na nossa secretaria, nós temos uma física mulher, além de diretorias de uma maneira geral, unidades de pesquisa.
A gente tem uma presença feminina. O INT, que é uma unidade de pesquisa longeva do nosso ministério, quem dirige é uma mulher. O Instituto Renato Archer, que é um instituto relevante na área de TI, quem dirige é uma mulher. Então, nós temos várias unidades, estou dando esses exemplos, mas nós temos cada vez mais um esforço para a presença de liderança.
Então, hoje, a gente não chegou ainda aos 50%, mas a gente está nos patamares aí de mais de 40% de presença e também com a preocupação de raça. Um dos nossos secretários é um funcionário de carreira negro de uma área estratégica que é de transformação digital.
Então, essa visibilidade para nós tem um peso. A gente, por exemplo, colocou a Jaqueline Góes como uma espécie de embaixadora da ciência, que é uma jovem baiana negra que foi responsável pelo sequenciamento do genoma. E nós queremos que as meninas se vejam, que elas possam dizer, eu posso também, porque ela vê outra pessoa igual a ela naquela condição, com aquele histórico dela.
E o efeito tesoura é exatamente... isso é retratado na prática. A maioria da iniciação científica chega a mais de 64%. Aí, quando chega no topo da carreira, na produtividade, a gente vai para 35%.
Que revela que, nesse meio do caminho, essas condicionantes impediram a permanência e a ascensão. Então, as políticas que nós estamos voltadas é para dialogar ou remediar aquilo que a gente identifica.
Isso passa pela mudança da cultura das instituições também, né, ministra? Que as particularidades do universo feminino sejam vistas como agregadoras e não como um empecilho ou tragam prejuízo para as carreiras delas. Por exemplo, amamentar, ser mãe, enfim. Tudo aquilo que faz parte apenas do universo feminino, digamos assim, né?
E é excelência, né? Diversidade leva a excelência na pesquisa. E a gente está criando um comitê permanente para monitoramento dessas políticas de inclusão ou de inserção de equidade de gênero, racial, exatamente nessa perspectiva de ser uma política sistêmica.
A FINEP mesmo, que é uma agência estatal autônoma e independente, uma agência de financiamento que opera o principal recurso de fomento da ciência e tecnologia, o FNDCT, ganhou um prêmio recentemente pelas políticas de fomento e incentivo às lideranças de mulheres nessa instituição.
Quando a gente fala de política de fomento, a gente está falando de dinheiro aplicado na pesquisa.
Dinheiro aplicado na pesquisa, né? E essa agência tem resultados de premiação exatamente por fazer uma política de ascensão de mulheres em cargo de liderança.
Então, em funções de liderança, e isso é real hoje, né? Afinal, a primeira mulher ministra da Ciência e Tecnologia é preciso dar conta desse processo, né? Depois de 40 anos. Então, eu tenho a responsabilidade de dar o exemplo e efetivar uma ação objetiva que garanta esse enfrentamento à desigualdade.
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