Embrapa apoia cidades para sistemas alimentares mais saudáveis, sustentáveis e circulares
Transformar a maneira como os alimentos chegam às cidades, são adquiridos, consumidos e, muitas vezes, desperdiçados exige conhecer melhor o comportamento das famílias e, ao mesmo tempo, apoiar os governos locais
Transformar a maneira como os alimentos chegam às cidades, são adquiridos, consumidos e, muitas vezes, desperdiçados exige conhecer melhor o comportamento das famílias e, ao mesmo tempo, apoiar os governos locais na construção de soluções adequadas às diferentes realidades urbanas. Com esse propósito, a Embrapa Alimentos e Territórios desenvolverá, ao longo de 24 meses, o projeto “Sistemas alimentares circulares: envolvendo as cidades na transição”, financiado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS).
Liderado pelo analista de Pesquisa e Desenvolvimento Gustavo Porpino, com participação da pesquisadora Flávia Galvão Cândido como colíder, o projeto articula pesquisa, capacitação de gestores públicos e mobilização de instituições parceiras. A iniciativa pretende gerar evidências para apoiar a Estratégia Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional nas Cidades – Alimenta Cidades e a II Estratégia Intersetorial para Redução de Perdas e Desperdício de Alimentos no Brasil (Estratégia PDA), além de contribuir diretamente com programas e planos desenvolvidos pelos municípios.
“A Embrapa tem colaborado com a Estratégia Alimenta Cidades e a Estratégia PDA desde a fase de planejamento e, com este novo projeto, fortalecemos nossa capacidade de contribuir com a implementação das ações em parceria com governos locais e outras instituições. As pesquisas irão gerar dados empíricos relevantes para o aprimoramento das políticas públicas e a frente de capacitação irá incentivar cidades e parceiros a colocar em prática ações concretas para o fortalecimento de sistemas alimentares urbanos sustentáveis”, afirma Gustavo Porpino, representante da Embrapa no Comitê Gestor da Estratégia PDA e líder do projeto.
Dados para compreender consumo e desperdício
O projeto está organizado em quatro frentes complementares. A primeira vai investigar como diferentes barreiras influenciam as decisões de compra e o consumo de alimentos. A segunda analisará fatores comportamentais, culturais e ambientais relacionados ao desperdício de alimentos nas residências. A terceira apoiará governos locais na elaboração e implementação de planos para redução de perdas e desperdício e melhoria do ambiente alimentar. A quarta será dedicada à mobilização de atores e à comunicação dos resultados para gestores públicos e sociedade.
As duas pesquisas terão abrangência nacional e buscarão avançar em questões ainda pouco conhecidas, com o apoio de ferramentas de inteligência artificial para estimar o consumo e o desperdício de alimentos. Uma delas vai investigar até que ponto barreiras como preço, acesso, disponibilidade, falta de tempo, praticidade, hábitos, preferências familiares, ambiente alimentar e publicidade interferem nas escolhas dos consumidores. A outra buscará identificar fatores que contribuem para o desperdício de alimentos nas residências brasileiras e gerar informações capazes de orientar políticas e ações de prevenção.
“Vivemos um cenário em que o Brasil volta a sair do Mapa da Fome, mas enfrenta um desafio ainda mais complexo para as políticas alimentares: fome, elevado consumo de ultraprocessados e desperdício de alimentos coexistem e afetam especialmente populações em situação de vulnerabilidade social”, explica Flávia Galvão Cândido, pesquisadora e colíder do projeto.
Pesquisa do Pacto Contra a Fome e do Instituto PENSI mostrou que, embora o conhecimento sobre alimentação saudável esteja amplamente disseminado entre diferentes classes sociais, sua adoção no cotidiano é condicionada por diversas barreiras. Ao mesmo tempo, parte dos alimentos adquiridos não chega a ser efetivamente consumida, seja por problemas de planejamento, armazenamento, preparo, aceitação ou conservação.
“Nossa pesquisa pretende avançar da identificação dessas barreiras para a quantificação da sua magnitude e importância relativa, buscando compreender também os fatores associados ao desperdício e identificar aqueles que são potencialmente modificáveis por políticas públicas”, complementa Flávia.
Da pesquisa à ação nos municípios
Os resultados terão aplicação prática nas cidades. Cinco municípios participantes da Estratégia Alimenta Cidades receberão capacitações e apoio para implementar ações locais voltadas à melhoria do ambiente alimentar e à redução do desperdício. A metodologia das capacitações e dos planos será construída em conjunto com as gestões municipais, levando em consideração as especificidades de cada território.
Para Priscila Bocchi, do MDS, o protagonismo dos municípios é fundamental nesse processo. “O desafio de construir sistemas alimentares mais sustentáveis, resilientes e inclusivos passa necessariamente pelo nível local. É nas cidades que a demanda por alimentos se concentra, que o desperdício se materializa em grande escala, que as desigualdades no acesso à alimentação se tornam mais visíveis e que surgem oportunidades concretas para reconectar os sistemas alimentares ao planejamento territorial”, afirma.
Ela destaca que a parceria entre o MDS e a Embrapa fortalece a Estratégia Intersetorial para Redução de Perdas e Desperdício de Alimentos no Brasil, que tem entre suas ações o estímulo a políticas públicas municipais nessa área.
“Para a redução de perdas e desperdício de alimentos, é necessária uma transição para sistemas alimentares mais sustentáveis e saudáveis, que implica o fomento a circuitos curtos de produção e abastecimento, acesso a alimentos saudáveis, agricultura urbana e periurbana, ampliação da doação de alimentos saudáveis para os bancos de alimentos e gestão correta de resíduos orgânicos, incentivando a compostagem e a biodigestão”, explica Priscila.
Governança para dar continuidade às ações
Outro componente do projeto busca ampliar as possibilidades de continuidade das iniciativas para além de uma determinada gestão. A proposta é incentivar os municípios a institucionalizar as ações, incluindo-as em Planos Plurianuais (PPA) ou legislações locais, além de mobilizar conselhos de participação social para contribuir com sua continuidade.
Segundo Priscila, o projeto também reforça a atuação territorial prevista na Estratégia Alimenta Cidades. “A Estratégia Alimenta Cidades veio para consolidar e reforçar o apoio aos territórios como lócus da transformação social e da construção de sistemas alimentares mais justos e sustentáveis. O projeto da Embrapa irá reforçar ações de nível local que podem ser desenvolvidas para conduzir a esses sistemas mais justos, entre elas o apoio aos municípios para a construção de planos e estratégias locais para a redução de perdas e desperdício de alimentos.”
Experiência anterior orienta nova iniciativa
O projeto “Sistemas alimentares circulares: envolvendo as cidades na transição” dá continuidade aos aprendizados construídos pela Embrapa Alimentos e Territórios no projeto Cidades e Alimentação, executado entre novembro de 2022 e o primeiro semestre de 2024, com financiamento da União Europeia.
A iniciativa anterior contou com a participação das cidades brasileiras de Santarém (PA), Rio Branco (AC), Recife (PE), Curitiba (PR) e Maricá (RJ), além das cidades europeias de Valência e Barcelona, na Espanha; Gante, na Bélgica; e Turim e Milão, na Itália.
“Essa experiência possibilitou um intercâmbio de conhecimentos, a quantificação da geração de resíduos em feiras livres e contribuiu para que as cidades identificassem oportunidades de fortalecer a economia circular”, lembra Porpino.
Como exemplo concreto desse intercâmbio, Porpino cita o delineamento do projeto “Recolheita”, iniciativa da Prefeitura do Recife, por meio da Secretaria de Agricultura Urbana, voltada à redistribuição de alimentos e à compostagem de resíduos orgânicos provenientes de feiras e mercados públicos da cidade. De dezembro de 2023 a março de 2026, o projeto recifense recolheu 395,4 toneladas de resíduos orgânicos e produziu 176,5 toneladas de adubo, evitando a emissão de aproximadamente 304 toneladas de gases de efeito estufa.
Agora, o novo projeto avança ao combinar a produção de dados de abrangência nacional com ações diretamente voltadas à implementação de políticas nos municípios. O objetivo é engajar cidades na execução de planos locais para fortalecer sistemas alimentares urbanos circulares e, ao mesmo tempo, produzir informações sobre comportamento de consumo capazes de subsidiar a Estratégia Alimenta Cidades.
Mentoria apoia cidades na busca de soluções
A articulação com a Estratégia Alimenta Cidades também ocorre por meio da mentoria em Economia Circular e Redução de Perdas e Desperdício de Alimentos, que reúne instituições parceiras, entre elas a Embrapa, o WWF-Brasil e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).
A proposta é aproximar conhecimentos técnicos dos desafios enfrentados pelas gestões municipais e apoiar a construção de soluções que possam ser incorporadas às ações das cidades. A iniciativa complementa a atuação prevista no projeto, que também contempla capacitações presenciais e apoio à implementação de planos locais.
“A mentoria de Economia Circular e Redução de Perdas e Desperdício de Alimentos nos dá oportunidade de contribuir com os municípios na transição do diagnóstico para a implementação de ações concretas, fortalecendo a capacidade local de enfrentar desafios complexos relacionados aos sistemas alimentares. Ao sistematizar informação e conhecimento, podemos impulsionar as equipes municipais a construírem soluções que façam sentido para cada território, considerando suas particularidades, oportunidades e prioridades”, explica Luiza Soares, líder do Brasil Sem Desperdício no WWF-Brasil.
Para Soares, a parceria entre WWF-Brasil, Embrapa, Pnuma e MDS é uma grande oportunidade para integrar e fazer circular conhecimentos técnicos, promover inovação e ampliar o impacto das iniciativas desenvolvidas no âmbito da Estratégia Alimenta Cidades.
“Acreditamos que a cocriação de soluções e o fortalecimento da governança local são caminhos essenciais para tornar os sistemas alimentares mais circulares, resilientes e sustentáveis, contribuindo para a segurança alimentar e a qualidade de vida nas cidades”, complementa.
Parcerias para ampliar o alcance
Financiado pelo MDS, o projeto tem entre seus principais parceiros o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o WWF-Brasil, a Fundação Getulio Vargas (FGV), o Pacto Contra a Fome e a Universidade Federal de Viçosa (UFV). Está prevista ainda a participação de pesquisadores de outras instituições e universidades.
Além das pesquisas e capacitações, estão previstos produtos de comunicação, um encontro final entre gestores e instituições envolvidas e a elaboração de um documento de orientação para políticas públicas, com recomendações para gestores e apoio à replicação das experiências em outras cidades.
Entre os resultados esperados pelo MDS está a possibilidade de transformar a experiência dos municípios participantes em referências para outras cidades. “A parceria MDS–Embrapa poderá criar modelos de planos locais que conectem redução de perdas e desperdício de alimentos, segurança alimentar e nutricional, redução dos efeitos das mudanças climáticas e a construção de sistemas alimentares mais saudáveis, justos e sustentáveis”, afirma Priscila Bocchi.
A expectativa é que as informações obtidas sobre consumo, ambiente alimentar e desperdício contribuam tanto para o aperfeiçoamento das políticas nacionais quanto para decisões tomadas no âmbito municipal, capazes de ampliar o acesso à alimentação adequada e saudável, prevenir o desperdício e tornar os sistemas alimentares urbanos mais sustentáveis e circulares.
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