Justiça

Lula diz que Estado deu resposta histórica ao crime organizado nesta quinta-feira

Ação coordenada da Polícia Federal, Receita Federal e Ministérios Públicos desarticula organizações criminosas envolvidas em esquemas bilionários nos setores financeiro e de combustíveis

Yara Aquino | Agência Gov
28/08/2025 20:10
Lula diz que Estado deu resposta histórica ao crime organizado nesta quinta-feira
Ricardo Stuckert/PR
Presidente comentou em rede social as operações de combate ao crime organizado deflagradas nesta quinta-feira (28)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o País assistiu à maior resposta do Estado brasileiro ao crime organizado com as três operações deflagradas simultaneamente, nesta quinta-feira (28/8), nos setores financeiro e de combustíveis, envolvendo 10 estados.

“Nosso compromisso é proteger cidadãos e consumidores: cortar o fluxo de dinheiro ilícito, recuperar recursos para os cofres públicos e garantir um mercado de combustíveis justo e transparente, com qualidade e concorrência leal”, registrou Lula em rede social.

As operações Quasar, a Tank e a Carbono Oculto têm o objetivo de desarticular organizações criminosas envolvidas em esquemas bilionários de lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta e fraudes no setor de combustíveis. Lula afirmou que a ação coordenada da Polícia Federal, Receita Federal e Ministérios Públicos estaduais permitiu acompanhar toda a cadeia e atingir o núcleo financeiro que sustenta as práticas ilícitas.

“Seguiremos atuando com coordenação e seriedade para dar segurança às pessoas e estabilidade à economia”, finalizou o presidente.

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Participação de fintechs

No final da manhã desta quinta-feira, uma entrevista coletiva detalhou as operações com a participação do ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski; do ministro da Fazenda, Fernando Haddad; do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues; e da subsecretária de Fiscalização da Receita Federal, Andrea Costa Chaves.

Fernando Haddad afirmou que o Estado brasileiro inaugurou uma nova forma de combate ao crime organizado ao integrar órgãos do Governo Federal, ministérios públicos e órgãos estaduais. “Nós estamos atuando hoje em 10 estados brasileiros. Então, é uma mega-operação que envolveu a fiscalização de fundos por onde passaram R$ 52 bilhões em quatro anos”, disse.

O ministro destacou que bens dos criminosos foram bloqueados, o que vai enfraquecer a atuação do crime organizado e também ressarcir os cofres públicos.

Porque quando você tira o dinheiro do crime, ele tem dificuldade de se reorganizar”.Haddad lamentou que fintechs tenham servido de veículo para o crime organizado lavar dinheiro e anunciou mudanças. “Isso tem nos preocupado muito. A partir de amanhã, a Receita Federal enquadra as fintechs como instituição financeira”, disse.

Ele explicou que esse enquadramento faz com que as fintechs tenham que cumprir rigorosamente as mesmas obrigações que os grandes bancos, o que aumenta o potencial de fiscalização.

De acordo com o ministro, um expediente muito utilizado pelos criminosos é o de abrir e fechar a CNPJ. "E há indícios claros de alguns poucos grupos econômicos que se valem desse tipo de manobra para escapar das malhas da Receita Federal", diz Haddad.

As operação desta quinta-feira lançaram autos de infração que já somam R$ 8 bilhões. Esse volume, avalia Haddad, será muito maior quando as investigações forem concluídas.


NÚCLEO — As ações mencionadas por Lula são resultado direto da criação do Núcleo de Combate ao Crime Organizado, instituído em janeiro de 2025 pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, para integrar esforços entre diferentes órgãos do Governo Federal no enfrentamento à criminalidade organizada.

Em coletiva de imprensa concedida pelos ministros Lewandowski e Fernando Haddad (Fazenda), com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e a subsecretária de Fiscalização da Receita Federal, Andrea Costa Chaves, destacou-se que as operações representam um marco histórico no combate ao crime organizado.

"Trata-se de uma das maiores operações da história brasileira e eu ousaria dizer também que é uma das maiores operações em termos mundiais, graças ao entrosamento da Polícia Federal, dos órgãos fazendários, da Receita Federal, com a colaboração também de outros órgãos como o Ministério Público de vários estados, aos quais agradecemos”, celebrou Haddad.

O titular da Fazenda frisou que bloquear o patrimônio e estrangular financeiramente o crime é mais eficaz do que apenas prender pessoas, pois impede a continuidade das atividades ilícitas.

É a primeira grande operação, que eu espero que tenha grande repercussão, mas eu penso que é um caminho das pedras para que outras operações dessa envergadura sejam viáveis”, completou.

INTEGRAÇÃO — Segundo o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, os resultados só foram possíveis graças à integração entre os órgãos, em especial à parceria da PF com a Receita Federal dentro do Núcleo de Combate ao Crime Organizado. “O ministro Lewandowski demonstra, mais uma vez, a capacidade de cooperação e integração entre diferentes agências para que conseguíssemos fazer simultaneamente a deflagração dessas três importantes operações”, destacou.

Para a subsecretária de Fiscalização da Receita Federal, Andrea Costa Chaves, a operação evidencia a necessidade de o Estado brasileiro atuar com inteligência, análise de risco e integração institucional para impedir que o crime organizado se confunda com a economia legítima e prejudique empresários que atuam de forma regular. "A cooperação entre agências é extremamente relevante", completou.

Quasar

A Operação Quasar tem como objetivo desarticular uma organização criminosa especializada em lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta de instituições financeiras. A investigação identificou um esquema sofisticado que utilizava fundos de investimento para ocultar patrimônio de origem ilícita, com indícios de ligação com facções criminosas.

A estrutura criminosa operava por meio de múltiplas camadas societárias e financeiras, nas quais fundos de investimento detinham participação em outros fundos ou empresas. Essa teia complexa dificultava a identificação dos verdadeiros beneficiários e tinha como principal finalidade a blindagem patrimonial e a ocultação da origem dos recursos. Entre as estratégias utilizadas estavam transações simuladas de compra e venda de ativos — como imóveis e títulos — entre empresas do mesmo grupo, sem propósito econômico real. 

Estão sendo cumpridos 12 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Campinas e Ribeirão Preto (SP). A Justiça Federal autorizou o sequestro integral de fundos de investimento utilizados para movimentação ilícita, além do bloqueio de bens e valores até o limite de cerca de R$ 1,2 bilhão, montante correspondente às autuações fiscais já feitas. Também foi determinado o afastamento dos sigilos bancário e fiscal de pessoas físicas e jurídicas envolvidas.

Operação Tank

A Operação Tank tem como foco o desmantelamento de uma das maiores redes de lavagem de dinheiro já identificadas no Paraná (PR). O grupo criminoso atuava desde 2019 e movimentou mais de R$ 23 bilhões por meio de uma rede composta por centenas de empresas, incluindo postos de combustíveis, distribuidoras, holdings, empresas de cobrança e instituições de pagamento autorizadas pelo Banco Central.

A estrutura criminosa utilizava diversas táticas para ocultar a origem dos recursos, como depósitos fracionados em espécie (que ultrapassaram R$ 594 milhões), uso de laranjas, transações cruzadas, repasses sem lastro fiscal, fraudes contábeis e simulação de aquisição de bens e serviços. Além disso, o grupo é suspeito de utilizar brechas no Sistema Financeiro Nacional para fazer transações de forma anônima por meio de instituições de pagamento.

As investigações também revelaram práticas de fraude na comercialização de combustíveis, como adulteração de gasolina e a chamada bomba baixa, em que o volume abastecido é inferior ao indicado. Pelo menos 46 postos de combustíveis em Curitiba (PR) estavam envolvidos nessas práticas.

Estão sendo cumpridos 14 mandados de prisão e 42 de busca e apreensão no Paraná, em São Paulo (SP) e no Rio de Janeiro (RJ). Foram bloqueados bens e valores de 41 pessoas físicas e 255 jurídicas, totalizando uma constrição patrimonial superior a R$ 1 bilhão.

As investigações continuam, com foco na expansão da organização criminosa para outros estados e na responsabilização dos envolvidos.

Carbono Oculto

A Operação Carbono Oculto visa desmantelar um sofisticado esquema de fraudes, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis, controlado pelo crime organizado. O nome Carbono Oculto faz referência ao elemento químico presente nos combustíveis e ao ocultamento de recursos ilícitos em fintechs e fundos.

Foram cumpridos mandados em mais de 300 alvos em oito estados — Espírito Santo (ES), Goiás (GO), Mato Grosso (MT), Mato Grosso do Sul (MS), Paraná (PR), Rio de Janeiro (RJ), Santa Catarina (SC) e São Paulo (SP) —, com bloqueio judicial de mais de R$ 1 bilhão em bens. As investigações apontam que o grupo movimentou valores bilionários de 2020 a 2024, com importações de combustíveis que somaram mais de R$ 10 bilhões, créditos tributários já constituídos pela Receita no valor de R$ 8,67 bilhões, movimentações financeiras de R$ 52 bilhões em mais de mil postos de combustíveis em dez estados — Bahia (BA), Goiás, Maranhão (MA), Minas Gerais (MG), Paraná, Piauí (PI), Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul (RS), São Paulo e Tocantins (TO) — e, ainda, R$ 46 bilhões operados por fintechs que funcionavam como bancos paralelos da organização.

Além disso, a Receita Federal já aplicou R$ 891 milhões em autuações a postos de combustíveis envolvidos. Foram identificados 140 postos sem movimentação financeira, mas com R$ 2 bilhões em notas fiscais de compra de combustíveis e 10,9 mil depósitos em espécie entre 2022 e 2023, que somaram R$ 61 milhões. O levantamento apontou ainda a existência de 40 fundos de investimentos utilizados para blindagem patrimonial, com ativos avaliados em R$ 30 bilhões, incluindo um terminal portuário, quatro usinas de álcool (mais duas em negociação), 1.600 caminhões para transporte de combustíveis e cerca de 100 imóveis. Entre os bens estão seis fazendas em São Paulo, avaliadas em R$ 31 milhões, e uma residência de luxo em Trancoso/BA, adquirida por R$ 13 milhões.

O esquema envolvia importadoras, formuladoras, distribuidoras, postos de combustíveis e lojas de conveniência, com práticas como adulteração de gasolina com metanol, simulação de operações fiscais e uso de fintechs para dificultar o rastreamento do dinheiro. A ocultação era feita por meio de fundos de investimento, que controlavam cerca de R$ 30 bilhões em patrimônio, incluindo usinas, terminais portuários, imóveis de luxo e frotas de caminhões.

A operação contou ainda com a participação do Ministério Público de São Paulo, do Ministério Público Federal, das Polícias Civil e Militar, da Secretaria da Fazenda e Planejamento de São Paulo, da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional e da Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo.


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